Síndrome de fim de ano? Saiba por que nos sentimos mais melancólicos em dezembro
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Síndrome de fim de ano? Saiba por que nos sentimos mais melancólicos em dezembro

O período de festas e de encerramento de mais um ciclo pode disparar sentimentos de ansiedade, exaustão, tristeza; estabelecer metas realistas para o próximo ano é importante

Leitura: 7 minutos

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein

Dezembro chegou. É neste período que muitas pessoas fazem uma espécie de “balanço geral” dos últimos 12 meses e percebem que praticamente metade dos planos e objetivos traçados não foram cumpridos. O fim de mais um ciclo, ao lado das tradicionais festas de fim de ano, pode desencadear sentimentos de ansiedade, melancolia e até quadros de depressão e insônia em pessoas mais sensíveis. Isso tem até um nome: síndrome de fim de ano.

“A síndrome de fim de ano, ou a dezembrite, é um diagnóstico popular que não é formalmente codificado pela psiquiatria nem pela psicologia, mas é uma forma simples de nomearmos um sofrimento recorrente, que afeta várias famílias nesse período do ano”, explica o psicanalista Christian Dunker, que também é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a psicóloga Julia Rigueiro Silva, do Serviço de Psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein, a síndrome de fim de ano pode afetar qualquer pessoa e é uma forma de nomear um estado emocional, seja por fazer um balanço do ano que passou, seja por trazer lembranças, frustrações e lutos não elaborados.

Os sentimentos associados à síndrome de fim de ano são muito semelhantes aos de pessoas que vivem no hemisfério norte e relatam ter a “depressão de inverno”. Nesse caso, esse sentimento é chamado de transtorno afetivo sazonal, pois está relacionado à mudança de estação. “Quando o inverno começa a se aproximar, muitas pessoas ficam mais inquietas, com medo do que vai acontecer, temendo o estado de isolamento e as dificuldades que vêm com o frio. A síndrome de final de ano é uma reação parecida. Os sentimentos de ansiedade, de tristeza e melancolia podem aparecer”, diz Dunker.

O que desencadeia o problema?

Há várias razões que ajudam a explicar por que as pessoas ficam mais melancólicas nesse período. Primeiro, é um momento de transição, marcando o encerramento de um ciclo, o que provoca angústia e um estado genérico de temor pelas mudanças que virão com o início do novo ano. “Esta é uma data em que muitas pessoas tomam decisões. Pode envolver mudança de emprego, separação de casal, mudança de casa, de cidade. É um conjunto de circunstâncias”, explica o psicanalista.

O segundo ponto é que, especialmente no Natal, as pessoas geralmente participam de celebrações que envolvem reuniões familiares, com amigos e colegas de trabalho. Este período é compreendido por muitos como um momento de renovação, reencontro e festividades, mas pode trazer à tona possíveis conflitos dentro da própria família que podem não estar bem resolvidos.

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“Frente à pressão social para que essa seja uma época de comemorações, de alegrias e de encontros, às vezes as pessoas precisam lidar com situações frustrantes e mal resolvidas, gerando maior sentimento de angústia”, diz a psicóloga do Einstein. Além disso, o luto também é um fator que pode se tornar um gatilho: “neste período, os sentimentos e as recordações ficam mais aflorados. As reuniões em família podem ativar o sentimento relacionado à perda e à memória afetiva de pessoas que já se foram. Acaba despertando a sensação de melancolia e de sofrimento”, explica.

Um terceiro motivo para desencadear a síndrome de fim de ano é que, após o Natal, caracterizado pela reunião familiar, segue-se a celebração do Ano Novo, que é a festa dos desejos e do futuro do indivíduo: “em geral, as pessoas fazem balanços muito curtos, muito rápidos, que não são verdadeiras meditações pessoais. Olham para o ano que passou como se fossem uma empresa”, explica Dunker.

“São esses balanços que frequentemente levam à sensação de decepção, de frustração. Isso acaba tornando a experiência um encontro com o vazio, com a perda, com a falta, com o que a pessoa ainda não alcançou. Essa é uma fonte importante de sofrimento”, detalha o psicanalista.

Outros fatores que influenciam no desenvolvimento da síndrome incluem problemas financeiros, acúmulo de tarefas, sensação de vazio, sentimento de fracasso, saudade das pessoas que já partiram, isolamento social, alta demanda no trabalho, entre outros. Isso também engloba a pressão em torno das expectativas criadas para o ano que passou e para o novo ano que está prestes a começar.

Corrida aos consultórios

Diante de tantos sentimentos misturados, a procura por ajuda profissional costuma aumentar consideravelmente nessa época do ano, especialmente na semana que antecede o Natal. “Isso é certo e garantido”, brinca Dunker, ao destacar que muitas pessoas procuram ajuda por estarem com um problema agudo, como se pudessem resolver em um único atendimento.

“Pacientes antigos reaparecem dizendo que precisam de um horário urgente. Pacientes novos, que nunca fizeram análise, também pedem atendimento nesta semana”, conta. Segundo o psicanalista, apesar de tantos sentimentos bagunçados, a maioria dos casos é pontual e nem todos seguem fazendo terapia no início do ano:

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“Nós atendemos muitos casos de pessoas em sofrimento agudo, mas quando entra o ano novo, tudo passa. Alguns pacientes colocam a psicoterapia entre os objetivos para o ano novo, mas nem todos seguem um tratamento”.

Apesar de normalmente ser algo passageiro, é importante ficar atento a alguns sinais de alerta que podem indicar que a síndrome de fim de ano foi apenas um gatilho para o desenvolvimento de algum outro transtorno, entre eles, a depressão ou a ansiedade. Segundo a psicóloga do Einstein, os sentimentos de melancolia costumam desaparecer após os períodos de festas. Se isso não acontecer, é recomendado que a pessoa procure ajuda profissional.

“A mistura de sentimentos faz parte, é natural do final do ano. Ninguém é linear, mas quando os episódios passam a se tornar recorrentes é preciso buscar ajuda. Entre os sinais, estão insônia ou sono em excesso, falta de apetite, desânimo, fadiga, dificuldade de concentração, uso abusivo de substâncias como álcool e drogas. Se for um episódio isolado, tudo bem. Mas quando a pessoa se isola, fica mais introspectiva e perde a motivação, é preciso um olhar profissional”, alerta Silva.

Tem como evitar a síndrome de fim de ano?

Dunker afirma que é difícil evitar ou prevenir a síndrome de fim de ano porque as circunstâncias são muito variadas de pessoa para pessoa. Não é possível prever, por exemplo, se alguém perderá o emprego ou se um casal decidirá se separar, pois são eventos pontuais e individuais que podem afetar as pessoas de formas distintas.

No entanto, existem recomendações para tornar esse período menos melancólico. A primeira delas é fazer um balanço do ano com calma e cuidado, escrevendo sobre as conquistas e o que ainda não foi alcançado em relação às metas estabelecidas: “leve a sério essa tarefa”, recomenda Dunker. 

A segunda dica é não ter medo de fazer esse balanço, não ter medo de olhar para a própria vida, porque esse é o momento em que todos estão “convidados” a viver essa situação. “Converse com outras pessoas de sua confiança, mas conheça e respeite os próprios limites. Se a gente ultrapassa os nossos limites ficamos desgastados do ponto de vista emocional e psicológico”, orienta a psicóloga do Einstein.

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O terceiro ponto é entender que as festividades significam um reencontro com o passado. Então, é preciso ter paciência e tolerância: “não espere demais, porque isso pode trazer certas decepções”, afirma o psicanalista.

Por fim, estipular objetivos realistas também é uma estratégia positiva. “Se viu que não alcançou as metas que foram estabelecidas no ano anterior está tudo bem, não precisa desanimar. Vamos estipular novos planos, mas sempre refletindo sobre o que você conseguiu entregar. Ter uma organização, mesmo que seja mental, é importante para todas as pessoas”, pontuou a psicóloga. Dunker concorda e ressalta que criar perspectivas para o futuro é importante tanto do ponto de vista objetivo quanto subjetivo. “O problema é que frequentemente confundimos metas, objetivos e métricas com os nossos sonhos. Só precisamos ter o cuidado de não confundir os sonhos com as metas para não chegar ao fim de mais um ano infeliz”, finalizou.

Com foco em saúde, ciência e bem-estar, a Agência Einstein oferece gratuitamente conteúdo qualificado para jornais, revistas, emissoras de TV e rádio e sites de notícias. A iniciativa do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, tem o objetivo de difundir informação de qualidade para promover saúde e difundir conhecimento.

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