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Tempos de angústia: o sofrimento de Sísifo e a saída teleológica

Há um rol interminável de perdas que a partir de 2020 foram experimentadas

(Imagem ilustrativa/Reprodução)

Por Leonardo Delatorre Leite¹ e Davi Schelotag de Moraes²

Antoine Prost, em seu livro “Doze lições sobre a história”, nos deixa um ensinamento importante sobre a periodização do tempo: ela nos permite, a partir de um questionamento proposto para o passado, da delimitação de um “objeto” de análise, identificar rupturas e continuidades em suas estruturas. Uma lição que nos pareceria muito distante em um mundo que, apesar de marcado pela mudança e liquidez, funciona em bases comuns de média ou longa duração tidas como certas por cada um.

Essas bases comuns podem ser desde o modelo de convívio escolar e as possibilidades de relações sociais em shoppings e bares, até as relações de trabalho e sua separação (apesar de relativa) do domicílio marcada por ritos de passagem, como tomar um banho quente após chegar em casa, que reforçam uma mudança de ambiente. Entretanto, o ano de 2020 abalou completamente rotinas e modelos de relação e percepção tidos como óbvios, uma virada que não pode mais ser desfeita em razão do avanço impiedoso da história que poderia ser resumido pela interpretação de Schiller proposta por Koselleck: “O que se perde em um minuto não se recupera em uma eternidade” (KOSELLECK, 2007, p.134) 

Há um rol interminável de perdas que a partir de 2020 foram experimentadas. Essas perdas vão desde amores que não puderam se concretizar por conta das dificuldades impostas pelo isolamento a familiares mortos não só por um vírus, mas também por um governo irresponsável. Elas também envolvem a ampliação de um brutal abismo entre ricos e pobres e a corrupção dos bolsos mais vazios, a despeito do aumento da concentração de renda durante a pandemia. Além disso tudo, há de se acrescentar mais uma sequela dessa virada repentina: a quebra da percepção temporal.

Todos nós fomos imersos em um paradoxo do isolamento em que não se percebe a passagem do tempo enquanto ele se acelera. Fechados em um mesmo ambiente por meses a fio, uma sensação de estaticidade foi inevitável para a esmagadora maioria, algo semelhante ao “presentismo” descrito por François Hartog em “Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo”:

“Com o regime de historicidade, tocamos, dessa forma, em uma das condições de possibilidade da produção de histórias: de acordo com as relações respectivas do presente, do passado e do futuro, determinados tipos de história são possíveis e outros não. O tempo histórico, se seguirmos Reinhart Koselleck, é produzido pela distância criada entre o campo da experiência, de um lado, e o horizonte da expectativa de outro: ele é gerado pela tensão entre os dois lados […] A partir do final do século XVIII, essa história pode esquematizar-se como a de um desequilíbrio que não parou de crescer entre essas duas, sob efeito da aceleração […] distância que se tornou máxima entre o campo da experiência e o horizonte da expectativa, até o limite da ruptura. De modo que a produção do tempo histórico parece estar suspensa. Daí talvez essa experiência contemporânea de um presente perpétuo […] Tudo se passa como se não houvesse nada mais do que o presente, espécie de vasta extensão de água agitada por um incessante marulho”. (HARTOG, 2013, p.39-40)

Isso intensificou o choque da tomada de consciência de que o mundo seguiu seu caminho, os meses e anos continuaram a passar, e ficamos para trás. A vida vivida como era nos abandonou, sem nenhuma projeção de expectativas positivas para o futuro. Condenados à semelhança de Sísifo, que todos os dia precisava levar morro acima a mesma pedra em um trabalho interminável, inútil e sem expectativa de melhora, nossos dias se tornaram uma grande e repetitiva tortura que levanta o questionamento sobre um sentido que possa justificar uma existência tão miserável e frágil. A pandemia escancarou o fato de que nossa vida é dependente de costumes e convenções, que são facilmente abalados pela contingência viral e por práticas negacionistas que não estão sob nosso poder de controle. 

Destarte, apesar das angústias e sofrimentos oriundos da conjuntura atual amedrontadora, devemos prosseguir em nossos objetivos e propósitos, pois a vida ordinária, em sua dimensão mais simples e corriqueira, revela, de forma holística, a profundidade da existência humana. Nesse sentido, Santa Teresinha de Lisieux era categórica no pensamento segundo o qual o bom cumprimento das obrigações e costumes do cotidiano expressam o nosso compromisso com as mais nobres virtudes e, em última instância, com a felicidade. Temos a impressão de que o tempo passa rapidamente, ou seja, quase que de forma imperceptível, pois ainda somos incapazes de atribuir um significado profundo aos aspectos da vida ordinária. 

Em sua obra “Ética a Nicômaco”, Aristóteles afirmava que a compreensão  do sentido, ou melhor, da finalidade da existência humana é nevrálgica para uma boa vida. Nesse sentido, o pensamento do filósofo supramencionado é caracterizado pela teleologia, ou seja, pela dimensão finalística. Por certo, a tradição grega reiterava que a plena realização da natureza humana se dá pela busca do Sumo Bem. 

‘Toda arte e toda ciência, assim como cada ação e cada escolha, parecem ter como objetivo algum bem. Por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo que todos procuram (…) Se, então, há alguma finalidade nas coisas que fazemos (…) é muito claro que essa finalidade deve ser o belo e o bem, e em especial, o sumo bem”. (ARISTÓTELES, 2021, p. 09-10) 

Sob o mesmo ponto de vista, os filósofos da escolástica definiram o Sumo Bem como o propósito derradeiro da existência humana. Contudo, tais pensadores foram mais adiante e definiram o Bem enquanto a genuína caridade, cuja essência é o Amor concreto. Nesse sentido, Santa Teresinha afirmava que a dignidade da vida consiste em, por meio do Amor verdadeiro, enxergar a beleza nas pequenas coisas, nos pequenos afazeres e nas pessoas ao nosso redor. “O amor encerra todas as vocações do homem (…) amemos, pois nosso coração não foi feito senão para isto”, dizia a santa em questão. 

Em virtude do que foi apresentado, percebe-se que somente no Amor nossos sofrimentos encontram um significado. Somente no amor encontramos um propósito para perseverar. Portanto, apesar do clima funesto da conjuntura atual, bem como da sensação da estaticidade, é preciso ter consciência de que existem coisas preciosas em nossas vidas, que sempre nos acompanharam e que sempre hão de nos acompanhar. Se valorizássemos mais os pequenos momentos de risadas com amigos, um bom café com a família e as convenções mais simples da sociedade, certamente, aproveitaríamos melhor o tempo que nos é dado. O Amor consiste em enxergar a felicidade nas pequenas coisas. Não nos enganemos com falácias que tendem a desvalorizar a ordinariedade da vida, pois, no ordinário, demonstramos nossa força moral. 

“A vida de quase todos nós é feita de pequenas coisas, e são estas que põem à prova o nosso caráter. Poucos são os chamados a desempenhar lugar de relevo nos grandes conflitos dos nossos tempos; a grande maioria luta em cenários apagados, e desempenha tarefas humildes. Os combates que o homem tem de enfrentar, quer contra o mal de seu mundo interior, quer contra o círculo moral, no qual a sua influência é menos trivial do que pode parecer, são, de fato, a luta pela vida e pelo decoro.” (Venerável Fulton Sheen

Diante do exposto, duas lições devem ser destacadas: o Amor, enquanto Sumo Bem, representa a plena realização do homem e, somente na simplicidade, podemos manifestar nosso compromisso com as virtudes e com a caridade. A pandemia também nos ensinou acerca da  eminência da rotina e do apreço aos aspectos mais comuns do cotidiano. Por fim, que possamos valorizar, de forma adequada, a vida em sua dimensão ordinária, aproveitando, assim, cada momento e refletindo o anseio pela esperança. 

“São santos os que lutam até o fim da vida: os que sempre sabem levantar-se depois de cada tropeço, de cada queda, para prosseguir valentemente o caminho com humildade, com amor, com esperança”. (São Josemaría Escrivá).

¹ Graduando em Direito e História pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Bolsista PIBIC-CNPq. Membro do grupo de pesquisa Religião, Memória e Cultura do Centro de Educação, Filosofia e Teologia da Universidade Mackenzie.

² Graduando em História pela USP. E-mail: davischelotag@usp.br.

(Foto: Sesab)

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