Insônia: entenda os riscos de tomar remédios por conta própria para dormir
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Saúde

Insônia: entenda os riscos de tomar remédios por conta própria para dormir

Diante do aumento de casos de uso abusivo de medicamentos para
o sono, a Anvisa tornou mais difícil a prescrição do zolpidem

Leitura: 8 minutos

Por Fernanda Bassette 

Provavelmente você já passou por algum episódio de insônia durante a vida – aquela dificuldade de adormecer, de permanecer dormindo ou de voltar a dormir após um despertar indesejado. E você não é o único: o Estudo Epidemiológico do Sono (Episono), divulgado em 2023, aponta que 45% dos moradores da cidade de São Paulo sofrem de insônia. Diante do inconveniente de não conseguir dormir, não é raro ouvir relatos de pessoas que recorrem a medicamentos psicotrópicos (entre eles, o zolpidem e a zopiclona) sem o acompanhamento médico adequado. 

O uso indiscriminado desses remédios e os riscos da automedicação chamaram a atenção da comunidade médica e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que decidiu tornar mais rígida a prescrição dessas drogas, para frear o uso abusivo. 

Esses produtos são chamados de “medicamentos da classe Z” (já que os nomes começam com essa letra) e são recomendados para pacientes com insônia de curto prazo, ou seja, quando está acontecendo há menos de 90 dias. Eles são hipnóticos e sedativos que atuam especificamente no receptor cerebral chamado Gaba, que é o principal receptor inibitório do sistema nervoso central. Eles funcionam como um botão de “liga e desliga”, induzindo o sono de forma rápida — diferente dos benzodiazepínicos (como clonazepam e nitrazepam), que agem também contra a ansiedade. 

“A diferença entre um e outro é que as ‘drogas Z’ atuam apenas nos receptores que nos fazem dormir, sendo muito utilizadas para a insônia, ao passo que os benzodiazepínicos têm ações mais amplas”, explica a neurologista Letícia Soster, do Grupo Médico Assistencial do Sono do Hospital Israelita Albert Einstein. E é pelo seu efeito rápido – e pela promessa de acordar revigorado, sem a sensação de ressaca – que o uso irregular é perigoso, especialmente para quem se automedica.  

Segundo Soster, por se tratar de uma medicação com início de ação rápida, ela deve ser utilizada só com a prescrição médica e imediatamente antes do horário de dormir, quando a pessoa já está deitada, para não haver o risco de comportamentos inadequados. “O risco vai aumentar se a pessoa tomar esse medicamento e não estiver preparada para dormir. Alguns receptores serão desligados e, se ela continuar acordada, usando, por exemplo, o computador, podem acontecer comportamentos anormais, dos quais ela não se lembrará depois”, destaca a neurologista, ao citar casos de abuso e até relatos de pessoas que fizeram compras de produtos ou de pacotes de viagem, discutiram com o cônjuge e outras situações semelhantes.  

Também há o risco de dependência química da medicação, se ela for usada de maneira inadequada e sem acompanhamento. De acordo com Soster, o primeiro indício é comportamental, quando o paciente começa a acreditar que só consegue dormir se tomar o remédio. “As drogas Z têm um mecanismo químico de dependência muito importante porque elas agem bloqueando os receptores gabaérgicos. O problema é que eles funcionam como um mecanismo de encaixe e, com o tempo, esse encaixe passa a funcionar e fazer adormecer apenas quando tem o receptor encaixado”, detalha a neurologista.  

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Isso significa que, com uso contínuo e sem o acompanhamento adequado, a pessoa começa a sentir a necessidade de uma dose um pouco maior da medicação, e a aumenta por contra própria, sem o uso de outras estratégias essenciais para o tratamento da insônia. “A pessoa vai precisar cada vez mais aumentar as doses e é nesse momento que acontece o uso indiscriminado e abusivo, como temos visto. Foi isso o que motivou todo o movimento para dificultar o acesso à medicação”, analisa a especialista. 

Segundo a neurologista Márcia Assis, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS), apesar de os medicamentos Z serem considerados seguros, é preciso ficar alerta para casos de sonolência diurna, especialmente em idosos e mulheres, que devem usar doses menores.  

A medicação tampouco deve ser associada ao uso de bebida alcoólica e outros sedativos e hipnóticos. “A dependência e a abstinência são efeitos indesejáveis observados nos casos de abuso, ao lado de alterações comportamentais durante o sono. É importante lembrar, no entanto, que as situações de risco ocorrem em quem utiliza doses além das recomendadas. O uso regular, com a supervisão médica, não tem riscos”, frisa.  

Prescrição passa a ser mais rigorosa 

A decisão da Anvisa de tornar a prescrição do zolpidem mais rigorosa levou em consideração, inclusive, o crescimento no consumo da substância nos últimos anos e a constatação do aumento das ocorrências de eventos adversos relacionados a ele. Dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) apontam o aumento de 15,9% em quatro anos: foram vendidas 15,7 milhões de unidades da medicação entre maio de 2019 e abril de 2020 e 18,2 milhões de maio de 2023 a abril de 2024. 

Com a nova resolução, a prescrição de todo medicamento que contenha zolpidem ou zopiclona, independentemente da concentração, deverá ser feita na receita especial B, de talonário azul, que é mais controlada e só pode ser emitida por profissionais previamente cadastrados na vigilância sanitária local – em geral, especialistas em psiquiatria e neurologia.  

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Além disso, os fabricantes deverão mudar a embalagem, alterando a tarja de cor vermelha para a preta. Até então, apesar de o produto já integrar a lista de substâncias psicotrópicas e controladas, havia uma brecha no texto que permitia prescrição de até 10 mg em receitas brancas de duas vias, por qualquer médico, sem a necessidade de cadastro prévio. As novas regras entram em vigor no dia 1º de agosto. 

“Esperamos que a nova regulamentação auxilie na redução do uso indiscriminado. Esta medida também aumenta a reflexão e a preocupação com a necessidade do tratamento adequado da insônia. Ele não é feito exclusivamente com o uso de medicação. Além disso, quando for indicada, ela deve ser prescrita por um profissional especializado, que vai avaliar o tipo de insônia, possíveis causas, os fatores que perpetuam o problema, as doenças associadas e outros dados médicos”, ressalta Assis, da ABS.

A neurologista lembra que o tratamento medicamentoso da insônia pode até ser uma escolha, mas sempre deve ser associado a medidas não farmacológicas, como a redução do uso de telas e a prática de atividade física.  

Melatonina também preocupa 

Outro produto que tem sido usado de forma indiscriminada e sem o acompanhamento médico para o tratamento da insônia é a melatonina, vendida em farmácias sob a forma de suplemento alimentar (em comprimidos ou em gotas). Popularmente chamada de “hormônio do sono”, a melatonina é um hormônio produzido de forma natural pelo corpo e é muito importante para a regulação do ritmo circadiano, ou seja, o ciclo de vigília e sono – o nosso relógio biológico. Por não ser considerada um medicamento, a melatonina não segue os mesmos critérios de segurança exigidos para que uma medicação chegue ao mercado.

Embora a Anvisa tenha limitado a quantidade máxima de uma unidade de dose de melatonina a 0,21 mg, nada impede que o paciente use muito mais. “Há relatos de pacientes que tomam 10, 20, 30 comprimidos de melatonina para dormir”, conta Soster, ao afirmar que existem poucos dados sobre os efeitos colaterais a longo prazo do uso em altas doses e sem controle. “Por não ser um medicamento, é muito mais difícil supervisão e o registro dos eventos adversos”, observa a médica do Einstein.

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A recomendação das especialistas para quando houver sinais de insônia é buscar um médico e fazer uma avaliação – só um especialista vai poder falar se o uso de alguma medicação é necessário ou não. Não existe um “número mágico” para a quantidade mínima de horas que devem ser dormidas, por isso a percepção do paciente é fundamental. O primeiro sinal de que o sono não vai bem é perceber os prejuízos na rotina durante o dia: podem ser psíquicos e, emocionais, relacionados a alterações no humor, muita taquicardia, cansaço e, sonolência, entre outros. 

“São muitos os sintomas que se relacionam a uma noite de sono mal ou pouco dormida. Eles são bastante amplos e pouco específicos. A dica mais valiosa é observar como você acorda: se já acorda cansado, preocupado com o sono, ou com cefaleia, quando deveria estar mais relaxado, isso é um sinal de que a noite de sono não está adequada”, destaca Soster.  

Para conseguir ter uma noite revigorante de sono, não há segredo: é preciso iniciar o processo de higiene do sono já quando acorda. Segundo Soster, é preciso sinalizar para o corpo que o sono acabou, ter contato com a luz do sol, realizar atividade física para “cansar” o suficiente, manter horários regulares para as refeições e outras atividades cotidianas.

Próximo da hora de dormir, é preciso mostrar para o cérebro que é o momento de desligar. As especialistas recomendam não se expor à luz meia hora antes de se deitar-se; manter atividades mais relaxantes; não usar a cama para trabalhar, estudar ou, ver televisão; reduzir o uso de telas e não levar preocupações para o travesseiro. “Se não conseguir controlar os pensamentos, uma dica é anotá-los num caderno e voltar para a cama apenas com sono. Esse conjunto de hábitos nos ajuda a ter um sono saudável”, finaliza Soster.

Com foco em saúde, ciência e bem-estar, a Agência Einstein oferece gratuitamente conteúdo qualificado para jornais, revistas, emissoras de TV e rádio e sites de notícias. A iniciativa do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, tem o objetivo de difundir informação de qualidade para promover saúde e difundir conhecimento.

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