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“Logo Ali”: Policial Civil do Rio faz filme sobre África do Sul, retratando suas desigualdades sociais e segregacionismo, mesmo no Pós-Apartheid

Em campanha para divulgação e exibição nos cinemas, através do site www.querovernocionema.com, documentário será lançado no ano do centenário do nascimento de Nelson Mandela

“A África do Sul de Mandela me ensinou que é possível virar a página manchada da história, desde que nós abaixemos as armas para darmos as mãos”

Beto Chaves,

Policial Civil do Rio e Diretor de “Logo Ali”

 

Kamunya, imigrante queniano que foi tentar a vida na África do Sul e virou empresário. Ele nunca tinha visto um branco na vida antes de chegar na terra de Mandela
Foto: Leo Santos

Em tempos de rasas polarizações nas discussões sobre políticas públicas e de segurança no país, é de se exaltar as iniciativas que buscam promover uma reflexão mais profunda e de acordo com a complexidade dos diferentes tecidos sociais. Assim nasceu o documentário LOGO ALI – África do Sul, no qual o policial civil do Rio de Janeiro, Beto Chaves, que vive diariamente a guerra contra as drogas no Rio, em que o enfrentamento armado é a política adotada, visita o país sul africano, numa busca de conhecer as histórias das pessoas e, principalmente, discutir sobre o que a liberdade significa para cada um hoje em dia e o que esperam do futuro do seu país. Trata-se de uma metáfora da relação de espaço e tempo, do que une e do que separa a humanidade. A relação África do Sul – Brasil, a distância geográfica que um dia, há milênios, não existia, parece realmente desaparecer quando surgem temas como preconceito, diferenças sociais, drogas, arte, cultura, educação, tradições, juventude e empreendedorismo. LOGO ALI também se refere a datas de acontecimentos históricos como o Apartheid, o fim do regime que durou 40 anos, a libertação de Mandela e sua recente morte. É um filme sobre pessoas comuns e pensamentos extraordinários, é sobre uma sociedade que ainda engatinha numa nova democracia.

Com a direção do inspetor da Polícia Civil Roberto Chaves de Almeida e do designer Leo Santos, o filme mostra como a população busca virar a página da segregação. Uma das grandes dificuldades é a sombra do racismo que ainda paira na África do Sul pós-apartheid e a desigualdade resultante dela, mas que, segundo Chaves, esta em transformação e andamento.“O que ficou bacana de mostrar é que há processos, que a gente às vezes não respeita. Devemos ter maturidade de entender que se o processo está em andamento, estamos ganhando. O que não podemos é retroceder, mas se está caminhando temos que potencializar este processo”, explica.

Na favela de Langa na Cidade do Cabo cabeças de cabra são assadas direto no fogo limpas abertas e vendidas como refeição para a população pobre
Foto: Leo Santos

Um dos exemplos desse processo é retratado no filme, quando após uma refeição em uma fazenda na região onde Mandela nasceu, um homem branco diz que não levaria um negro para jantar em sua casa, mas, admite que o seu filho já brinca com negros naturalmente e sem preconceitos. O documentário entrevista quase 40 pessoas e tem os dois lados da moeda: a África do Sul branca, dona da riqueza e detentora de grande parte do país; e os negros, moradores das townships, habitações humildes nas periferias do país criadas para segregar territorialmente os negros durante o Apartheid. Nos dois lados, o sentimento é de que muita coisa ainda precisa ser feita. No lado mais favorecido da história, resquícios da política racista ainda persistem.

“É uma história de pessoas, de heróis anônimos, tem a linha do Apartheid, mas não é só isso. O filme mostra a riqueza escondida no meio de todos nós”, reflete Chaves, traçando um paralelo com a jovem democracia brasileira: “a África do Sul e nós somos muito parecidos em nossas mazelas e riquezas. A sombra do Apartheid ainda existe, é tudo muito novo. O regime começa em 1948 e acaba em 1990. Olha para o Brasil, tudo o que aconteceu, a nossa constituição da República tem 30 anos. É muito pouco tempo para dizer que a questão do racismo está resolvida. A nossa democracia aqui é jovem, lá também”, compara.

Beto é Policial Civil no Rio de Janeiro, já participou de incontáveis operações policiais de combate às drogas, numa cidade completamente marcada e dividida numa guerra civil não declarada. Desde os primeiros dias em sua carreira policial, Beto desejou fazer diferente, criou um programa dentro da Polícia Civil que iria na direção contrária, rompendo com a repetição do sistema repressivo ao qual estava inserido e ao rumo tomado desde a fundação de sua instituição, criando assim o Papo de Responsa. “Responsa” é uma gíria carioca que significa responsabilidade, seriedade e objetividade. Esse programa visa o diálogo e uma escuta absolutamente generosa, entre diferentes, como “arma” fundamental para o alcance da empatia, assim resultando na prevenção da violência e na aproximação da sociedade com a polícia de forma natural, derrubando os muros invisíveis que separam as pessoas, numa conversa franca e aberta, visita escolas, universidades, igrejas, associações de moradores, dividindo suas experiências pessoais e profissionais, aproximando pessoas de pessoas. Com o Papo de Responsa, Beto tornou-se conhecido por todo o Brasil e viajou por 31 países, provando que é possível rompermos com os esteriótipos e repensarmos o preconceito.

Crianças em Joanesburgo. Beto Chaves aponta a educação, cultura e políticas sociais como saídas para os problemas não só da África do Sul, mas também do Brasil
Foto: Leo Santos

Financiamento coletivo para lançar documentário

Com as dificuldades existentes para quem faz cinema no país, os realizadores do documentário tentam levantar recursos de forma coletiva para divulgá-lo e levá-lo aos cinemas e festivais do Brasil e do mundo.

“O mais bacana foi a ação de realizar, mas tem o mérito de ele estar pronto e disponível para as pessoas. Realizar é difícil, mas realizar cultura é muito mais difícil, ainda mais em nosso país. Documentário é meio marginal, não tem a grande audiência, é mais difícil captar recurso, carece um pouco disso, da necessidade de formar público”, disse ao explicar que a ideia de fazer o filme com o designer Léo Santos “foi uma grande boa conspiração do universo.”

O dinheiro arrecadado será usado para levar o documentário aos cinemas, além de produzir material gráfico, divulgação online, assessoria de imprensa, palestras em escolas públicas e universidades, inscrições e participações em festivais de cinema. Mas a principal meta é garantir presença no Festival de Durban, na África do Sul, na mesma data em que se comemora o centenário de Nelson Mandela, no dia 18 de julho.

As recompensas para quem ajudar vão desde o nome nos créditos finais do documentário, acesso online ao filme em primeira mão, até convites para a pré-estreia, variando de R$ 25 a R$ 250. Até esta sexta-feira, a campanha tinha arrecadado mais de R$ 7 mil, mas a meta é chegar aos R$ 70 mil até o dia 6 de abril. Para colaborar e fazer parte deste projeto, basta acessar http://www.querovernocinema.com/

Teaser LOGO ALI

Direção de Beto Chaves e Leo Santos Produzido por Promax Produções Co-Produção IDEOgraph, Malaika Experience e Vilaroucas

Duração: 72 minutos




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