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1 ano de Lula preso: Qual o futuro da esquerda com seu principal líder fora do jogo?

A pé, às 18h42 do dia 7 de abril de 2018, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva deixou a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e se entregou à Polícia Federal, tornando-se o 1º ex-presidente preso na história do país. Um ano depois, especialistas avaliam o impacto do aprisionamento de Lula e o futuro da esquerda sob a batuta de Bolsonaro

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Para o cientista político e professor da PUC Rio, Ricardo Ismael, a cena era o ápice de um desgaste acumulado pelo mais bem sucedido líder de esquerda no Brasil, desencadeado pela sequência de denúncias sobre relações escusas entre Lula e empresas ligadas à Petrobras. Passado um ano, Ismael avalia que o ex-presidente ainda é figura importante no Brasil, mas questionamentos à legitimidade desta posição tendem a minar a autoridade e o respeito do povo em relação ao líder do PT.

“Há um desgaste acumulou-se a partir da Operação Lava Jato, sobretudo nas regiões sul, sudeste, centro-oeste e — embora no nordeste ele ainda preserve um pouco do capital político principalmente em função de programas sociais feitos durante o governo —, hoje há um questionamento muito maior da liderança política do Lula, mesmo no campo da esquerda”, avalia o professor.

A opinião é compartilhada pelo professor da FGV em São Paulo, Cláudio Couto. Para ele, embora permaneça presente no imaginário nacional e ainda seja figura carimbada no noticiário brasileiro — ajudando a catapultar Haddad para o 2º turno das eleições de 2018 mesmo com forte rejeição ao PT —, Lula aos poucos começa a ser visto como um entrave à renovação do campo ideológico à esquerda por lideranças partidárias adjacentes à legenda do metalúrgico.

“O PT se prendeu à bandeira do ‘Lula Livre’ como seu principal mote de ação, o partido vincula-se de forma muito personalista à figura do Lula sem [apresentar] uma agenda que descole dele. (…) Fernando Haddad, que poderia ser o representante de um partido mais moderno e atualizado, também está preso à imagem de Lula, o que não é o suficiente para voltar a ser alternativa”, avalia.

Esquerda fragmentada e carente de renovação?

O efeito prático da prisão do ex-presidente, avalia Ricardo Ismael, pode se refletir na aparição ou não de nomes fortes capazes de arrebatar o eleitorado à esquerda. No momento, o cientista político diz que, embora “a necessidade na reciclagem do discurso seja grande”, os partidos de esquerda foram incapazes de produzir quadros à altura do ex-presidente.

“A centro-esquerda precisa se reformatar, ganhar uma outra roupagem para enfrentar questões nas quais a direita assumiu o protagonismo, como no caso do combate à corrupção, à criminalidade e à crise econômica. Como Lula ainda é a principal figura do próprio PT, ele impede a renovação dentro do partido e, de certa maneira, até mesmo dentro do campo da centro-esquerda”, pontua, dizendo acreditar, porém, que as eleições municipais de 2020 podem revelar novos nomes no cenário político nacional.

Couto faz coro, mas acredita ser prematuro confiar em novos líderes da política a capacidade de ancorar apoio do campo à esquerda. Para ele, jovens como Tábata Amaral (em primeiro mandato) são sinais de oxigenação do sistema, mas “levaria ao menos uns 20 anos para que ela seja comparável ao que Lula se tornou”. Ele também cita outros nomes como Alessandro Molon, deputado do Rio de Janeiro com postura de liderança na Câmara nos últimos anos.

“Para a renovação ocorrer, essas pessoas precisam fazer uma trajetória, se construir e mostrar algo mais denso”, defende. “Ciro Gomes poderia ser esse nome, mas dá cotovelada para todo canto e acaba se isolando, Marina Silva derreteu nas últimas eleições e a imagem que tinha de política não-tradicional foi totalmente absorvida por Bolsonaro, evidentemente de uma forma autoritária”.

Líder do PT na Câmara, o deputado Paulo Pimenta alerta para ser prematuro cantar o fim político da sigla. Chamando o aniversário de prisão de Lula de “sequestro dos direitos políticos de uma pessoa condenada sem crime e sem provas”, o parlamentar destaca feitos do PT nas últimas eleições para mostrar que o partido segue firme como importante representação do povo na política.

“Nós tivemos uma presidenta cassada de maneira injusta, nosso principal líder preso, a 60 dias das eleições lançamos um novo candidato que tinha 3, 4% nas pesquisas e que conseguiu 30 milhões de votos no 1º turno, elegemos a maior bancada de deputados no Congresso Nacional e o maior número de senadores. Isso mostra a força da esquerda”, diz, lembrando que considerando o número de eleitores aptos a votar, “apenas 28% dos brasileiros escolheram Bolsonaro. O povo não referendou esse projeto de poder”.

Fragmentação do espectro ideológico

Pimenta diz ainda que o PT entende, neste momento, é “importante a construção de uma frente política em defesa da democracia que vá além da nossa participação e protagonismo”. É postura distinta da anunciada no início do governo Bolsonaro. À ocasião, calejada com a derrota para o candidato do PSL, a legenda sinalizou vontade de se articular internamente, sem alianças com outros partidos de esquerda.

“Há pelo vários partidos formando posição. Há o PCdoB, o PSOL, PSB, PDT, Rede, nós temos uma potente malha de movimentos sociais composto por organizações em defesa dos interesses dos trabalhadores, o movimento cultural, a juventude, as mulheres, os intelectuais, todos assumindo uma postura de consciência pela defesa da democracia. O Brasil hoje tem uma maior consciência política que vivemos, o que traz muito vigor à resistência”, avalia o líder petista.

Ismael corrobora o discurso e vê “certa unidade como na questão, por exemplo, da reforma da Previdência onde se observa [estes partidos] caminharem com certa coesão, com uma postura de bloco, resguardando diferenças que possam haver”, mas Couto faz uma ressalva: a oposição pela oposição pode não ser o suficiente para levar estas legendas ao centro do poder mais uma vez.

“Nós vemos, por exemplo, na oitiva do ministro Paulo Guedes que a oposição pode sim ir para frente, ainda que de forma negativa. Negativa no sentido menos de propor alguma coisa e mais de negar o que o governo propõe. É legítimo e não quer dizer que não possam fazer isso, mas é pouco para quem pretende amanhã se apresentar como alternativa de governo. (…) Diria que, para se fortalecer de fato, a oposição vai precisar de algo mais, uma alternativa mais efetiva e viável para o futuro deste país. Até agora não temos isso aparecendo”, critica.

No que tange a bandeiras, a oposição à reforma da Previdência será um teste de fogo importante, mas não o único a desafiar a unidade à esquerda. Para o cientista político e professor da UFRJ, Carlos Eduardo Martins, os partidos deste espectro ideológico deverão compor uma agenda “efetivamente comprometida com a cidadania brasileira” e um “programa radical de enfrentamento neoliberal”.

Apontando a importância de lideranças como “Marcelo Freixo, [Guilherme] Boulos, Glesi Hoffmann, [Fernando] Haddad, Manuela D’Ávila, Jandira Feghali e [Leonel] Brizola Neto” ao mencionar novos nomes de destaque da esquerda, Carlos acredita que diante de um projeto de governo de “violações aos direitos sociais e à democracia”, a esquerda vai acabar se unindo.

“Há um cuidado excessivo para não melindrar as grandes oligarquias do país. A esquerda tem de deixar de se preocupar com a elegância e assumir uma perspectiva radical que fala às paixões e aos desejos do povo brasileiro tão excluído da vida nacional”, defende.

 

/// Sputinik Brasil


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