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Vaza Jato na Veja: Moro deixou de lado a imparcialidade e atuou ao lado da acusação

Revista analisou 650 mil mensagens da força-tarefa recebidas pelo Intercept e atesta que Moro era líder da Lava Jato

Veja: "Revelações enfraqueceram a imagem de correção absoluta do atual ministro de Jair Bolsonaro e podem até anular sentenças". Foto: Lula Marques/Agência PT
Veja: “Revelações enfraqueceram a imagem de correção absoluta do atual ministro de Jair Bolsonaro e podem até anular sentenças”. Foto: Lula Marques/Agência PT

Mais um capítulo das reportagens da Vaza Jato, publicadas com base nos vazamentos dos diálogos entre Sérgio Moro – então juiz federal – e membros da força-tarefa da Lava Jato veio a público nesta sexta-feira (5), revelando bastidores da operação.

Desta vez, a parceria do The Intercept Brasil foi com a revista Veja. Os cinco repórteres que assinam a reportagem intitulada “Novos diálogos revelam que Moro orientava ilegalmente ações da Lava Jato” afirmam ter analisado 649.551 das quase 1 milhão de mensagens de Telegram trocadas entre membros da força-tarefa que foram vazadas e atestam: “palavra por palavra, as comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras”.

Veja publicou uma série de novos diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro e membros da Lava Jato do Ministério Público Federal (MPF) de Curitiba, entre eles o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa. O conteúdo das mensagens demonstra que o “atual ministro pediu à acusação que incluísse provas nos processos que chegariam depois às suas mãos, mandou acelerar ou retardar operações e fez pressão para que determinadas delações não andassem”.

“À luz do direito, é tão constrangedor quanto se Cristiano Zanin Martins [advogado de defesa] fosse flagrado passando a Moro argumentos para embasar um habeas​-corpus a favor de Lula”, comparou a reportagem de Veja/The Intercept.

“Moro deixou de lado a imparcialidade e atuou ao lado da acusação”

Em tom analítico, a reportagem considera que havia intimidade excessiva entre a magistratura e a acusação. Prova disso foi o posicionamento de Moro recomendando a rejeição de um possível acordo de delação premiada com o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ).

Quando os procuradores da Lava-Jato aceitaram uma reunião com os advogados de Cunha para conhecer os anexos da delação, Moro apressou-se em interpelar Dallagnol. O procurador explicou tratar-se apenas de uma reunião inicial e garantiu que manteria o magistrado informado. 

“Agradeço se me manter (sic) informado. Sou contra, como sabe”, declarou Moro, mesmo sem saber do conteúdo da delação e apesar de ser ele, enquanto juiz, o responsável por decidir posteriormente se aceitaria ou não a oferta de informações em troca de redução de pena. A delação de Cunha nunca se concretizou.

Anteriormente, em grupo interno do MPF criado para discutir a possível delação de Cunha, o procurador Ronaldo Queiroz havia afirmado esperar que “Cunha entregue no Rio de Janeiro, pelo menos, um terço do Ministério Público estadual, 95% dos juízes do Tribunal da Justiça, 99% do Tribunal de Contas e 100% da Assembleia Legislativa”.

Outro dos casos de relação promíscua entre o MPF e o juiz que se transformaria em herói da Lava Jato, foi quando Dallagnol antecipou a Moro, via mensagem privada de Telegram, a manifestação do Ministério Público no caso da prisão preventiva de José Carlos Bumlai. Além da “peça quase pronta” o procurador ainda encaminhou ao “chefe” um compilado com “algumas decisões boas para mencionar quando precisar prender alguém”.

Ocultação de provas

As trocas de mensagens também confirmaram que Moro manobrava manter os casos da Lava-Jato em Curitiba, sob sua tutela, como nos casos de Lula do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia.

Um exemplo citado pela reportagem, foi quando o atual ministro da Justiça ocultou uma prova importante de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da prisão de um executivo do grupo Andrade Gutierrez, Flávio David Barra, em 2015, por pagamentos de propina durante a construção da usina nuclear Angra 3.

A defesa de Barra recorreu ao STF pedindo a suspensão do processo alegando incapacidade de Moro de julgar o caso por suposto envolvimento de parlamentares, entre eles Edson Lobão (MDB-AL). O recurso cai nas mãos de Teori Zavascki. Ele pede explicações a Moro, que nega o envolvimento, mas suspende as investigações.

Moro é então forçado a encaminhar o caso ao STF. Um diálogo realizado dezoito dias depois, demonstra articulações de Moro no interior da operação Lava Jato para ocultar de provas, ou ao menos retardar sua inclusão no processo, para manter o caso em Curitiba.

O procurador Athayde Ribeiro Costa questionou a delegada Erika Marena, da Polícia Federal sobre uma “planilha/agenda” apreendida com o réu Barra contendo registro de pagamentos a diversos políticos. A delegada afirma que, seguindo orientação de “russo” (Moro), não tinha tido pressa em anexar a planilha . “Acabei esquecendo”, disse. 

Arquibancada

Os jornalistas compilaram, ainda, outros momentos de diálogos internos da Lava Jato que evidenciam o comportamento dos membros da força-tarefa como um torcida de futebol comemorando “cada lance da batalha contra inimigos”.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 13 de julho de 2015, quando Dallagnol comenta com os colegas de MPF: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”.

Em outro caso anedótico que demonstra a preocupação da força-tarefa com sua imagem na opinião pública, Moro comenta com Dallagnol, em 7 de maio de 2016, que havia sido procurado por Faustão (apresentador da TV Globo Fausto Silva) e recebeu um conselho: “Ele disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. Para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiria o recado. Conselho de quem está a (sic) 28/anos na TV. Pensem nisso”. Segundo a reportagem, Fausto Silva teria confirmado o encontro e o teor da conversa com Moro.

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