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Voluntariado e Protagonismo de Propósito

Como o trabalho voluntário pode ser um caminho para a civilidade e fortalecimento do País

Ilustração. Foto: Pixabay

Desde 2001, acompanho de perto o movimento do voluntariado no Brasil. Inclusive, aquele foi o ano no qual a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2001 o Ano Internacional do Voluntariado, e o Brasil conquistou um considerável destaque ao apresentar um crescimento de 42% nas atividades voluntárias registradas nos últimos dois anos. De lá para cá, verifico, sim, mais avanços. Seria um melancólico arauto da tragédia se não conseguisse vê-los. A despeito de minha observação inclinada para o otimismo, algumas pesquisas recentes, como por exemplo, as organizadas pela consultoria Santo Caos, indicam que o número de brasileiros engajados de forma lúcida e recorrente no voluntariado ainda é pequeno. De forma generosa, penso, é plausível arriscar que um em cada 10 brasileiras e brasileiros realizou ou realiza algum tipo de atividade voluntária de forma regular. Frente aos desafios coletivos do País, é difícil deixar de dizer que é pouco, muito pouco engajamento.

Diante disso, é preciso perguntar: o que te põe em movimento? O que me põe em movimento? O que me dá coragem para desafiar o que vão pensar de mim? Eu fui ser palhaço em hospital. Em 2002, participei da fundação de uma ONG chamada Canto Cidadão. Ainda hoje faço parte da gestão das iniciativas que já levaram arte a mais de três milhões de pessoas em hospitais, escolas, ONGs e muitos outros locais. Arte e bons encontros pela vida. Nos últimos 17 anos, eu tenho visitado regularmente hospitais da Grande São Paulo, assim como já estive em mais de 200 hospitais em todos os estados brasileiros e em outros sete países. No hospital eu entendi tudo isso de forma ainda mais intensa, ainda mais visceral.

O hospital é um microcosmo que nos ajuda a compreender a sociedade. Lá eu aprendi e sigo aprendendo que sou paciente e cuidador, simultaneamente, em tempo integral; que é possível promover bons encontros, mesmo em momentos desafiadores; que rir não é o melhor remédio, mas, sim, o respeito e o interesse genuínos e incondicionais pelo lugar do outro são. Sem essas bases, as tentativas de humor podem violentar, em vez de alegrar.

Eu não vou mais ao hospital fazer show, inspirado em alguma sorte de egotrip. Eu vou buscando encontros, pontes para visitar e ser visitado. Lá eu aprendi e sigo aprendendo que quem tem pelo que viver, aguenta quase tudo; também aprendi, na pele, o sentido mais essencial da ética: compartilhar inteligências para melhorar a convivência. Como? Pela proteção e elevação de toda forma de vida. Ou, nas palavras de Antígona, uma das mulheres mais fortes criadas na Antiguidade para consagrar o poder do feminino, dedicando-se à garantia do direito inalienável de se nascer, viver e morrer com dignidade e honra.

Os benefícios de olhar além de si, de descontrair, podem ser enormes. Apesar das frustrações em diversas ocasiões, eu percebo pela minha jornada que pode ser real essa história de que o ser interessado aumenta a sua chance de se tornar interessante. E quem não gosta de ser interessante? E de quebra, a gente deixa Immanuel Kant feliz, afinal, ele nos disse que “a maioridade existencial vem quando a gente para de esperar, a maior parte do tempo, que o mundo cuide de nós, e assume nosso papel de cuidadoras e cuidadores”.

Voltando ao princípio, vivemos a vida coletiva ainda de forma tímida. Na pesquisa global ‘Perigos da Percepção 2017’, feita pela Ipsos, em 38 países, o Brasil ficou em penúltimo lugar em relação ao Índice da Percepção Equivocada, que aponta distorções entre opiniões e realidade de fatores relacionados ao lugar em que as pessoas vivem. Não por acaso, os países com altíssimos níveis de IDH ficaram entre aqueles com as menores taxas de percepção equivocada. Ou ainda, menor índice de alienação frente à realidade.

Cada vez mais eu acredito num voluntariado lúcido e entusiasmado. Lá no Canto Cidadão, depois de muito sofrimento, a gente entendeu:

Não basta fazer o bem sem olhar a quem. A gente quer fazer o bem de forma bem feita, olhando a quem, sim, para entender as causas daquelas consequências.

Por isso, fomos metamorfoseando nossa pegada voluntária. Criamos um programa de identificação de perfil, o PIP, para saber se as pessoas que querem ser voluntárias em hospitais e escolas, apresentam, naquele momento de suas vidas, as competências comportamentais e emocionais adequadas para estar nesses ambientes, de forma nutritiva para si e para o outro. Criamos também treinamentos intensos e extensos que são feitos antes do início e no curso das atividades voluntárias. Treinamentos que têm, pelo menos 40 a 50 horas de encontros reflexivos e práticos. E, criamos um Acordo de Responsabilidades entre a ONG e os voluntários, que rege os termos dessa parceria entre pessoas, com consequências positivas e negativas, também.

Afinal, acordo é acordo. E, à exceção de casos de saúde ou força maior, acordo deve ser cumprido. Senão a gente não funda bons encontros. Senão a gente não funda civilidade e nem País. A gente acredita no poder dos bons encontros. E o voluntariado pode ser um ótimo caminho para saber mais de si, do outro e do mundo.

*Felipe Mello é empreendedor social e Diretor Fundador da ONG Canto Cidadão

Sobre Canto Cidadão
ONG que desde 2002 utiliza a arte, a comunicação e o protagonismo em programas socioculturais nas áreas da saúde e educação, tendo já beneficiado mais de três milhões de pessoas. Site: www.cantocidadao.org.br e Facebook: www.facebook.com/cantocidadao.


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