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Dia Internacional das Mulheres – O mito do macho viável

Jaqueline Vasconcellos - Durante a performance Não Alimente os Animais. Foto: Rodrigo Munhoz
Jaqueline Vasconcellos - Durante a performance Não Alimente os Animais
Jaqueline Vasconcellos – Durante a performance Não Alimente os Animais. Foto: Rodrigo Munhoz

Sororidade é uma palavra linda, que foi inventada para designar uma relação de irmandade entre mulheres, dentro do contexto da sociedade patriarcal que vivemos.

Literalmente, segundo o dicionário e grupos feministas, SORORIDADE significa “pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo”.

Existem alguns “erros” no sistema dessa Matrix onde a Sororidade poderia existir e, é disso que eu gostaria de falar.

Bom, para começar, acredito ser possível a Sororidade entre mulheres. Vejo isso na prática entre militantes feministas e desconhecidas que precisam realmente de ajuda e orientação. Porém, destaco que a Sororidade, para além de ser uma palavra é uma vigília diária, e segundo normas do sistema patriarcal vigente, onde fomos criadas, ela ainda não é possível sem um entendimento histórico que a situa em milhares de anos de repressão do corpo feminino, e no mito do “macho viável”. Explico…

Existe uma utopia possível que nós feministas construímos e nomeamos por Sororidade, mas nessa equação as variantes fazem parte de um sistema que nos educa, há milhares de anos, a achar que existe um macho viável para cada uma de nós. Essa construção de sentido, em que uma mulher só vale quando casada com um macho que a sustente (emocional e financeiramente), não condiz com as reais estatísticas brasileiras, à respeito da construção da família, e exclui qualquer outra possibilidade que esteja fora do comercial da antiga margarina “Doriana”.

Seja nas instituições de sempre (escola, família e religião) ou no lidar diário com nossas “manas”, o que nos é ensinado, em especial nos tempos atuais é que nada bastará em nossas vidas se não tivermos uma relação estável e aparentemente saudável com um HOMEM CIS.

Muitas lésbicas poderiam narrar o quanto suas relações são subestimadas ou mesmo anuladas socialmente, pois são duas mulheres juntas, que não exercerão o papel que a sociedade reservou para elas, numa peça mórbida e obscura, construída por héteros-cis-normativos.

Não há melhor maneira para apropriar-se do corpo feminino que fazer as mulheres guerrearem entre si. Foi isso que nos foi ensinado: guerrear umas com as outras por machos viáveis.

Afinal a “vagabunda” é a outra, que nos tomou o marido!
Não tendo homens cisgênero ao nosso lado, para a sociedade brasileira patriarcal, hegemônica e machista, não somos consideradas existentes (sim, é uma questão de inexistência mesmo).

Olhando casos que estão ao nosso lado, envolvendo pessoas comuns ao nosso cotidiano, vejo mulheres, supostamente perversas, que entram nas relações de outras mulheres, pois sentem prazer em fazê-lo, não por estarem vivendo supostas histórias de amor com homens casados e sim porque venceram a batalha contra outras mulheres.

Existe uma perversidade nisso sim, em especial quando envolve relações com homens casados cujas mulheres “largadas” tem filhos. Mas, também existe um incentivo social ao feito, pois ela está ganhando de alguém, de outra mulher (mesmo que depois, essa mesma sociedade, vá taxá-la de “vagabunda”). Isso nos alerta a pensar em como educamos nossos homens e mulheres.

O senso comum espera que, ao atingirmos determinada idade, estejamos casadas, felizes e que mantenhamos os nossos casamentos, além de termos uma profissão, claro! Ou seja, que se faça o que for necessário para manter um marido.
Tenho 36 e ainda me cobram relações estáveis. Uma anedota rápida: quando eu me separei, do pai do meu filho, minha mãe ao saber dos motivos da separação, foi a minha casa só para me perguntar na frente do homem que estava por virar meu ex-marido: “o que vai ser da sua vida agora? Você já pensou nisso? Olhe o que você está fazendo!”. Mesmo tendo me educado para ser uma mulher independente, que não depende de homens para sobreviver, minha mãe teve essa reação, e ela me parece óbvia e não um motivo de censura aos seus parâmetros.

Parece-me lógico querer fazer qualquer coisa para manter a família. Não é normal ou saudável, mas está dentro da norma machista. Por isso, “vagabunda” sempre será ELA… “a outra”, a que destruiu meu lar.

Compromissos são para as mulheres! Elas devem ter com os machos da espécie e com sua prole. Mas, para os machos, esses não… Esses podem voltar para a casa de suas mães (que os abrigarão, afinal são mulheres e, “acolhedoras”), trabalhar para ganhar dinheiro para si mesmos, ocultar recursos dos seus filhos, fazerem-se de vítimas de relações possessivas, gritar, bater, xingar, espernear e. ainda assim, continuarem suas vidinhas de machos mimados.

Quanto a nós, mulheres, seremos sempre as que mantêm as nossas famílias; as que aguentam a família dos homens nos apontando e dizendo que nós que quisemos os filhos, aguentando os vizinhos que nos dizem que os pais que pegam seus próprios filhos de 15 em 15 dias, e que contribuem com menos de um salário mínimo por mês, são ótimos pais e, em muitos casos, somos as que nos tornamos mulheres poderosas em nossas profissões e, ainda assim, não somos suficientemente boas.

O que proponho é uma reflexão séria sobre algumas das obrigatoriedades que estamos impondo às mulheres, como a de construir-se uma mulher perfeita e manter seu lar heteronormativo à qualquer custo, pois é isso que se espera de uma boa mulher ou se nomeia por “mulher de sucesso”:

– Olha lá, ela é tão famosa, viaja tanto e mesmo assim tem dois filhos e um casamento feliz.
Porém, nós feministas, estamos criando também como obrigatoriedade ter Sororidade pela “mana” quando sequer nos entendemos enquanto potência nesse mundo sectário que nos educou como inimigas.

Ampliemos as questões, tanto no âmbito feminista, quanto no senso comum ou incorreremos nos mesmos estereótipos mantidos por machistas, sexistas há milhares e milhares de anos de civilização.

Sobre Jaqueline Vasconcellos: performer, formada em interpretação teatral, com mestrado em dança e, atualmente é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Meios e Processos Audiovisuais. Faz parte da estação de trabalho colaborativa em performance La Plataformance, onde desenvolve trabalhos com a persona Jack Soul Revenge Girl. É articuladora da Série Mais um Pornô – arte, ativismo e encontro, onde realiza experimentos performáticos diversos acerca da violência contra a mulher. Em Agosto/2015 realizou a exposição individual “Sessões_Mais Um Pornô” no Palacete Carmelita. Artista selecionada para a Xoque – Mostra de Performance/2015 em Florianópolis e para o De|Generadas nesse mesmo ano.

Por Jaqueline Vasconcellos





Por *Colaborador

A coluna "Artigos de Colaboradores" é escrita por colaboradores da Folha Geral.

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